segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

No fim de tarde

O que eu mais gosto do verão não é o sol quente bom pra pegar uma cor na pele, que fica escondida o resto do ano, nem os vestidinhos leves, nem a licença pra usar chinelo o tempo todo, nem as praias lotadas. Minha parte preferida dessa época são as tempestades de fim de tarde.
Hoje foi um dia típico, quente desde o nascer do Sol, abafadíssimo, com uns ventinhos de vez em quando só pra gente não morrer sufocado. Desanimador pra quem tem que trabalhar, o calor particularmente me dá um desânimo tão grande quanto a minha moleza. Verão pra mim tinha que ser feriado nacional: passou de 30 graus vai todo mundo pra casa ficar na frente do ventilador ou, os mais animados, pra praia ou piscina. E foi exatamente isso que fiz hoje o dia todo - graças a Deus estou de férias - com pausa apenas para o almoço e um filminho quando o sol estava forte demais. Dá-lhe protetor.
Como em todo dia típico de verão, depois das 4 e pouco o céu começou a fechar. Um ventinho mais gelado, umas nuvens mais escuras. Saí correndo da piscina, troquei de roupa, procurei um chinelo (só eu sempre perco os chinelos ou é normal?) e corri pra passear com o cachorro antes do pé d'água cair. Dando a volta na quadra, já senti um pingo na testa. Vi todos da rua se recolherem ao som dos trovões. Entrei em casa e meu cachorro já correu pra debaixo da cama. Então a chuva parou de ameaçar, e finalmente caiu.
Não sei exatamente o que me encanta nessas tempestades, mas talvez seja a nossa pequenez diante delas. Engraçado como sempre penso sobre o que deve ter acontecido pra deixar Zeus tão puto da vida a ponto de despencar o céu em cima de nós. Acho lindo o fato de uma tempestade ser a única coisa capaz de transformar o dia em noite, de apagar o brilho do Sol, de deixar as ruas, até das maiores cidades, desertas.
O céu ficou cada vez mais escuro, e os pingos mais grossos e violentos. O vento jogava-os para os lados, bagunçados, em toda direção. Os raios e trovões se multiplicavam. Tirei as roupas do varal com pressa, verifiquei todas as janelas, deliguei a TV da tomada. Fiz um leite batido com chocolate e sentei na varanda para aproveitar o espetáculo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Só ela

Difícil sair daquele estado, físico, de espírito, in ou consciente, no qual muito se desejava e pouco se conseguia fazer. Preguiça justificada pelo desânimo justificado por ah-esses-dias-tão-limbosos. Mas lua após lua, foi escondendo em algum canto esse pesar que foi perdendo peso, ou pelo menos foco, ficou mais desimportante que o resto. Nas horas mais críticas ainda voltava e martelava o estômago, gritando "tem algo errado contigo, tem algo errado contigo". Aprendeu a mandá-lo calar a boca.
Sim, havia várias coisas erradas com ela. Sentia, só ela, ninguém mais, que havia coisas erradas. Que as pessoas mentiam demais sobre coisas pequenas demais, que as relações eram mais frágeis e mais superficiais ainda do que a felicidade estampada nos outdoors. Era uma falta imensa de espontaneidade, era muita reclamação pra tanta acomodação. Era muita maquiagem e pouco pé no chão. Era exaustivo.
Mas é, ela aprendeu a mandá-lo calar a boca porque ficar ouvindo remoendo lamentando também é acomodar. Ouviu de uma vez por todas, e chega. Não achava errado não concordar, não se encaixar, quase sempre sobrar. Era ruim, desconfortável, às vezes desanimador. Mas errado, por quê? Pra alguém a quem o mundo todo parecia errado, seus próprios desconfortos chegavam a ser até acolhedores.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Água e Xarope

Ainda era Agosto, e a noite quente que seguiu um dia desanimador fez necessário um passeio ao McDonald's mais próximo. Em meio a tanto marasmo naquele mês com cinco segunda-feiras, busquei alguma novidade, mesmo que esta se resumisse em experimentar o novo sanduíche de frango com bacon: ridiculamente, a previsão do jantar gorduroso foi o que me deu ânimo durante todo o dia. Estavam assim meus dias... movidos não por grandes perspectivas ou otimismo, pelo contrário, naquele tempo aguentar até a noite sem me envolver em decepções ainda maiores já era uma grande vitória.
Confortei-me ao notar que o McDonald's era o único restaurante com fila na praça de alimentação do shopping. O de comida tailandesa, percebi, era o mais vazio de todos. O grande número de gente ansiando por hamburguer e batata frita, além de fazer com que eu tivesse que esperar bastante para ser atendida, me mostrou que eu não era a única a buscar consolo na comida. E nada que fosse muito saudável teria um efeito eficaz no nosso espírito Agostino.
Um bom tempo de espera depois (de fast food, só restou o nome), pude me sentar para finalmente atingir o ápice de meu dia. A batata frita, boa como sempre. Os pacotinhos de ketchup e mostarda, melados e difíceis de abrir como sempre. O lanche, ótimo, talvez fosse meu novo preferido. E então experimentei a Coca-Cola...
Alguma coisa estava terrivelmente errada com aquele refrigerante. Era aguado como toda coca de máquina, até aí tudo bem, tinha gelo o bastante... mas o gosto. Aquilo simplesmente não era coca-cola. Estava mais pra uma mistura de Novalgina, Tylenol e um pouquinho de coca só pra dar a cor. Dei mais uma mordida no lanche, comi mais uma batata e tentei experimentar a bebida de novo, quem sabe fosse só impressão.
Não era impressão, era xarope mesmo. Se a coca estava estragada, se a regulagem da máquina estava errada, não sei. Mas aquilo definitivamente não era bebível, e resolvi deixar o copo de lado. Beber durante as refeições dá barriga mesmo... E tive medo de pedir para o moço trocar o refrigerante mas acabar pegando outro igualmente decepcionante.
Talvez fosse exatamente isso que eu vinha aprendendo em Agosto. É bom entender que a coca pode ser aguada, e pode ser quente, sem gás... mas tem que ser pelo menos coca. Se não tiver o gostinho que desce pela garganta e limpa tudo por dentro, não vale a pena. Jogo fora. Bebo água, bebo nada, mas não bebo xarope.
Aceito, por exemplo, que as amizades tenham falhas, que os amigos virem a cara, que a amiga te esqueça num fim de semana. Desde que ainda exista amizade.
O amor também. Pode estar velho, desgastado, ainda assim vale a pena quando ele simplesmente ESTÁ. Mas ah, se ele resolver ficar com gosto de xarope...
Eu prefiro beber água.
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Agosto se foi, e o gosto da coca xaropada saiu da minha boca. Sei que Setembro trará coisas leves, não é ele o mês das flores? Talvez tão leves, quanto a água. Não importa. Vou dar um tempo nos refrigerantes...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Dilema

Todo dia levanta
Até que contente
Mas nunca completa
.
Alegria aparente
Camufla por dentro
A alma inquieta
.
Ama seu lugar
Carinho por tudo dali
Entretanto, quer
.
Ela quer outra coisa
está aí o problema
Outra coisa o quê?
.
É seu maior dilema.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sob o sol do inverno

Fazia frio, daqueles frios mais bonitos: céu azul, sol brilhando, mas brisa de gelar o nariz. Esperava minha carona na mesma esquina de sempre, horário idem. Bolsa, livros, fichário, cachecol e demora.
Cadê ele? A aula começava em quinze minutos. Mentalmente, relembrava e decorava todos os tópicos da apresentação do seminário naquela semana. Peguei-me pensando alto, quem me visse acharia estranho. O vento fazia com que meu cabelo grudasse no batom recém passado, típico problema feminino. Mais dois minutos. Porque não chega?
Deveria ter pego o ônibus, ao menos estaria sentada, poderia ler meu livro e descansar a mente... Quando nada se pode fazer, tende-se a pensar demais. Observei dois casais que passavam pela rua: um deles provavelmente acabara de almoçar, e agora caminhava sem pressa já terminando um sorvete antes de voltar ao trabalho. Talvez ela fosse estagiária de um dos escritórios da quadra e ele, um médico iniciante. Percebi no modo de se olharem toda a esperança de uma vida desejavam ter, coisa de jovem.
O outro casal já parecia estar junto há anos, com certeza tinham filhos, provavelmente um cachorro da família, daquelas raças bem fofinhas. Percebi que a mulher tinha ido levar o almoço para o marido, a comida dela deve ser maravilhosa, pensei. Meu estômago roncou; engolira rapidamente um salgado na padaria, se soubesse que a carona atrasaria teria comido algo decente. Notei o McDonald's lotado logo na quadra de cima e desejei profundamente poder devorar um BigMac, quem sabe no dia seguinte. Quebraria minha promessa de não comer fast food por seis meses, mas não ligava, já era quase 12 de junho e nenhum príncipe encantado declarara seu amor pra mim até então.
Mais um dia dos namorados passado na solteirice não me machucava, já passara da fase de crucificar-me por não ser a mais disputada do bairro. Será? Bem que um cineminha ou um jantar a dois faria bem naquele fim de semana... não. Tinha trabalho pra fazer, livros pra ler, estava totalmente sem tempo pra essas frescuras. Aliás, naquele fim de semana visitaria meus pais.
Cinco minutos. Se ele não chegasse naquele instante, perderia a primeira aula. Ainda bem que o seminário era só no dia seguinte... Estava exausta. Lembro-me de assustar-me com minhas olheiras quando me vi no espelho ao acordar. Há dias não dormia direito, fim de semestre era sempre um inferno. Minha vida era papéis, capítulos, resenhas, trabalhos, professores, provas, e só. Logo teria quase um mês de férias, e esse era o único pensamento que me mantinha firme e quase forte. Ainda que sem nenhum planejamento especial, relaxar sem compromisso por algumas semanas era tudo que eu precisava.
Já chega. Vou andando, ele não vem!
Começava a me preocupar, alguma coisa deveria ter acontecido. Desde o começo das aulas ele nunca perdera o horário uma vez se quer. Liguei para o celular dele uma, duas, três vezes, não atendia. Tentei a quarta...
Alguém me chama por trás. "Helena!"
Ah, só pode. Era ele, a pé, andando tranquilamente como se não tivéssemos compromisso nenhum.
- Júnior, cadê o carro?! A gente já está atrasado e...
Fiquei em choque. Não reparara até agora que ele andava com as mãos para trás. Agora, mostrava porque: segurava um buquê de rosas, lindas, vermelhas, até brilhavam naquele sol de inverno. Chegou mais perto, bem mais perto. E finalmente disse alguma coisa.
- Tem alguma coisa muito, mas muito importante mesmo na aula hoje?
Juro que eu não estava raciocinando direito.
- N-não, eu acho...
Pegou minha mão, deve ter sido como segurar pedras de gelo, apesar de por dentro eu me sentir derretendo, como sorvete espalhado na calçada.
- Sei que demorei pra fazer isso, mas acho que agora é a hora... Quer ir no cinema comigo? Depois a gente poderia ir jantar, ou fazer o que você quiser, não sei bem, o dia dos namorados seria muito clichê e...
- Quero.
Respondi antes que ele se enrolasse; sei como falava desenfreadamente quando ficava nervoso. Afinal, ele não precisava. Eu sonhara e esperara por um momento desses há meses, desde quando ficamos amigos. Será que minha promessa havia funcionado?
Pelo jeito, o McDonald's teria que esperar.